quinta-feira, 30 de julho de 2015

Houve um tempo
Em que minhas possibilidades
Não incluíam a outra margem.
E a vida era mais simples sob o domínio de apenas um
Dos lados do espelho.
Todavia, há no meu olhar de hoje
Uma trilha vácua
Um pequeno vagalume a espreitar folhas nevoadas
Um cantar longínquo de um pássaro não identificado
A indicar que em algum momento
Vou encontrar as barrancas de terra vermelha
Erodidas pelo dente frio da água montanhesa
E terei que molhar meus pés sobre os seixos
E caminhar até a outra margem
De onde sequer poderei lembrar dos que adormeceram
- dos que docemente adormeceram –
Assim que limpei dos cabelos a nuvem matinal da garoa.
Espero o trem pra Taquaritinga
Então o tal trem pra Taquaritinga
Chegado atrasado infiel
Passará de noite com a sombra da noite
E eu perderei o trem
E eu perderei a noite
Perderei Taquaritinga
Fantasma da minha mãe
Ilusão de afeto
Não sou mais filho
Não és mais teto
Tudo passa e tudo agora
Ao mesmo tempo está
E partiu.
O trem pra Taquaritinga é um rio
E o meu coração é apenas  reflexo
Nas águas do rio de Taquaritinga
É certo que nunca existiu
Nem rio
Nem coração
Nem Taquaritinga.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Vazio

O vazio em mim
não é vazio.
Ele dói e é vero.
O vazio em mim
não é um
é zero.

Zero - um

Dividi meu ser
por zero
e o resultado
- inexistente -
é o conjunto
vazio
do meu desejo

No lugar onde
estou
não há
- nem eu.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Volta e meia

Eu
volta e meia
homem
erijo minha vontade
e grito
exijo
volta e meia sou
volta e meia desisto

Estou

Estou onde sempre estive
De onde saí

Para onde vou,
Permaneço.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

A roda da fortuna

Estive em todos os becos,
dos capitólios borbulhantes
às mais frias capitais
Sozinho, pesado e bronco
levei meu corpo deletério
por baixo de todos os portais
compus poemetos sem nexo
e discursos incoerentes
ao som das minhas correntes
visitei lugubres umbrais

Para , enfim, sem mais saída
depositar sobre o altar funéreo
os parcos dons do meu sexo
os nacos dos meus genitais

e então, de joelhos, confessado,
rezar
dormir
e deixar
que a brisa suave da tarde
apague as velas da nave
e faça a carne calar.